Os 9 ritos foram realizados no mês de Agosto do ano de 1992, na serra de Montemuro,
aldeia de Bustelo da lage, terra firme de meus pais e de tantas pessoas com amor.
A noite, à longas horas caminha certa para de madrugada beijar o sol…Deito meu corpo sobre esta age da eira da presa, sentindo-lhe as formas e o fresco em união com o meu corpo. Um cão veio fazer-me festas. Tem o tom dourado/noite no pelo. Veio em silêncio e partiu…Tenho agora somente o voo de um morcego em redoro da luz; um cantar de grilos ao longe e um som amigo de vozes que me chegam lá do alto. Todo o resto é o repouso da aldeia; é o dormir dos corpos sobre as camas e dos animais nas cortes. Amanhã será outro dia, é sempre outro dia. Alguns já o planearam. Outros, como eu, esperam a aventura. Decerto irei pintar…pintar…já não é importante esta palavra. A própria arte, se resumiu já, ao acto de viver. Fazer da vida o sentido único dos meus gestos. Quando agarro um espaço vazio e nele lanço as minhas marcas, é sempre um ritual de comunhão entre o homem/eu e um espaço da grande natureza. Cada vez mais, o rito é interiorizado. Cada vez, tudo é mais feito de sentidos e não de formas concretas. Ainda há tintas que, cada vez se unem mais com as pedras, os paus, as terras, as plantas, o barro, e os odores…Ah! se eu fosse um sábio dos cheiros…Cada vez, é mais importante respirar neste silêncio, deitar sobre estas pedras e lameiros, agarrar estes pedaços, incorporá-los nos ritos, transformá-los noutras realidades. As realidades das minhas obras.
A comunhão é um grande acto de Amor à Terra.

Profundo e gostoso de ler, adoro seu olhar e o seu sentir .
ResponderEliminarDeixar marcas " Quando agarro um espaço vazio..."
Porque deixar marcas é concretizar o viver ao meu ver, quem nada toca nada vive.
Helena M. Souza